Uma série de fotografias de testes de armas nucleares conduzidos na atmosfera foi publicada no site Topic. O que elas têm de especial? Tratam-se de imagens dos últimos testes norte-americanos dessa natureza, que encerraram no dia 4 de novembro de 1962. Ou seja, há quase exatos 55 anos.

Foi um conjunto de várias operações ao longo daquele ano, tais como Checkmate, Bluegill, Kingfish Tightrope. Essas fotos nunca foram vistas antes pelo público, porque eram classificadas como confidenciais. Além de muitas delas parecerem obras de arte – de um modo um tanto macabro – a maioria também têm histórias fascinantes por trás.

Essas explosões estavam acontecendo no espaço para determinar quão viável era disparar um míssil nuclear na atmosfera, uma tarefa muito difícil.

Com o nome de Operação Fishbowl, a série de testes incluiu um míssil Nike-Hercules que explodiu na atmosfera externa, acima do atol Johnston Island, a 860 milhas a sudoeste do Havaí.

Esse atol tinha sido escolhido devido à sua distância dos locais de teste anteriores e do Havaí, onde temia-se que os residentes poderiam ficar cegos pelos flashes iniciais de luz à medida que a reação em cadeia nuclear começasse.

Até hoje, devido aos testes nucleares, o atol é fechado à visitação pública, embora ele também abrigue depósitos de armas químicas.

Na mesma série de testes, houve também a operação Tightrope, na qual os Estados Unidos detonaram cerca de 300 armas nucleares em vários locais ao redor do Oceano Pacífico Sul e do sudoeste americano. A maioria dos testes possibilitou inúmeras informações para cientistas e imagens espetaculares: tsunamis atômicos gigantes que engoliam navios de guerra navais abandonados do Atol Bikini, nuvens de cogumelos cheios de sujeira e detritos que se ergueram no deserto do Nevada, a cerca de 65 milhas de Las Vegas.

Tais imagens seriam identificadas na consciência americana com o que o historiador de arte John O’Brian chama de “o logotipo dos logotipos no século 20”. O ícone do cogumelo que representa a ameaça atômica foi usado em todo lugar, até em campanhas presidenciais em propagandas amedrontadoras.

Confira abaixo as imagens de 62, separadas por cada uma das operações.

Starfish Prime (9 de Julho, 1962)

A bomba de 1,4 megaton foi enviada para o céu através do míssil Thor, e detonou a uma altitude de cerca de 250 milhas, por volta das 10 da tarde. O clima local produziu um pulso eletromagnético tão grande que danificou luzes de rua, linhas telefônicas e outros dispositivos eletrônicos a cerca de 900 quilômetros de distância no Havaí – e até mesmo na Nova Zelândia.

Ele também deixou um cinturão de radiação que paralisou vários satélites americanos e britânicos e chamou a atenção dos administradores da NASA, que se preocuparam com os potenciais efeitos nos veículos espaciais e astronautas.

Checkmate (19 de outubro, 1962)

Essas detonações ocorreram em altitudes extremamente elevadas, centenas de milhas acima da terra, naquilo que se chama termosfera. O objetivo do Fishbowl foi avaliar estratégias e métodos potenciais para interromper os ICBMs recebidos, ou mísseis balísticos intercontinentais.

A ideia era experimentar os efeitos – e a eficácia – das armas nucleares enviadas para dentro e para além da atmosfera superior, para que tais armas pudessem ser implantadas para destruir as ogivas nucleares enviadas para os Estados Unidos.

Bluegill Triple Prime (25 de outubro, 1962)

No final de outubro, naquela época, também ocorreu a eventual resolução da Crise dos Mísseis Cubanos, durante a qual os Estados Unidos e a URSS chegaram o mais perto de uma guerra nuclear.

O Bluegill Triple Prime e o Checkmate foram conduzidos durante essa crise. Em 5 de agosto de 1963, nove meses após o Tightrope, o presidente John F. Kennedy assinou o Tratado de Proibição de Teste Parcial, que proibiu os testes atmosféricos de armas nucleares.

Kingfish (1 de novembro, 1962)

A coisa mais fascinante e talvez preocupante sobre as imagens dos testes da Operação Fishbowl, conforme aponta o site Topic, é que elas obscurecem a real malevolência e poder dessas bombas.

Em suma, não é possível identificar o poder de destruição, nem mesmo as proporções devido à ausência de elementos naturais de referência que possam ajudar as pessoas a se situarem e compreender o tamanho, a escala e o poder destrutivo de uma arma nuclear. Coisas como palmeiras, navios, cordilheiras do deserto ou tropas blindadas não são vistas ao lado.

Assim, as imagens são representações de algo que parece mais embrionário, “como uma célula no microscópio”, diz Alan Brady Carr, historiador do Laboratório Nacional de Los Alamos em Novo México.

Talvez por isso tais imagens podem ser consideradas mais belas do que terríveis. Afinal, não podemos contemplar o efeito devastador dessas explosões, mas sim um pouco dos efeitos visuais em uma escala muito menor.